Guerra do Irã, seis meses depois: como o cessar-fogo que parecia resolvido virou crise de novo no Estreito de Hormuz

Seis meses de guerra Irã-Israel-EUA: do pico de US$ 126 o barril à trégua e à recaída. Veja como cada capítulo mexeu no preço do combustível no Brasil.

Navio petroleiro solitario navegando sob ceu dramatico, cenario que ilustra o transporte de petroleo em rotas afetadas pela guerra entre Ira, Israel e Estados Unidos

Em 3 de agosto, o petróleo caiu quase 5% num único dia depois que Trump cancelou um ataque planejado contra a infraestrutura energética do Irã e abriu conversas com Teerã, a pedido de Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar. O WTI fechou em US$ 80,34 o barril, queda de 5,11%, e o Brent foi a US$ 83,77, queda de 4,73%. Parece pouco, mas é o tipo de solavanco que esse mercado vem dando desde fevereiro, quando Estados Unidos e Israel abriram uma guerra que já passou por pelo menos três cessar-fogos e nenhum final definitivo.

Eu já escrevi sobre esse conflito por aqui em maio, quando o tráfego no Estreito de Ormuz tinha caído de 84 para 5 navios por dia. Volto ao assunto agora porque o que parecia resolvido virou de novo incerteza, e o preço da gasolina no posto brasileiro segue amarrado a esse fio.

Navio petroleiro solitário navegando sob céu dramático, cenário que ilustra o transporte de petróleo em rotas afetadas pela guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos
Crédito: Ismail SAIDI via Pexels

Como tudo começou: a Operação Epic Fury

Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos coordenados contra o Irã, batizados de Operação Epic Fury, matando o líder supremo iraniano e outras autoridades do regime. Em 1º de março, o navio-tanque Skylight foi atingido, matando dois marinheiros indianos. No dia seguinte, um oficial da Guarda Revolucionária confirmou o fechamento do Estreito de Ormuz, e em 4 de março a Guarda afirmou ter tomado controle completo da via. Em 27 de março, o Irã foi além: nenhum navio poderia passar se tivesse origem ou destino em portos dos Estados Unidos, Israel ou seus aliados.

O resultado foi a maior disrupção no fornecimento global de petróleo desde a crise energética dos anos 1970, numa rota por onde passa cerca de 25% do comércio mundial do produto. O Brent chegou a US$ 126 o barril em março, e o IPCA-15 daquele mês veio a 0,84%, com o acumulado em 12 meses em 4,10%, já acima do teto da meta.

O cessar-fogo que parecia ter resolvido tudo

Em 8 de abril, EUA e Irã fecharam um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão, e a Marinha americana iniciou o bloqueio aos portos iranianos em 13 de abril como parte do acordo. Trump estendeu a trégua indefinidamente em 21 de abril. Em 12 de junho vieram novas condições de cessar-fogo por 60 dias, seladas em 17 de junho quando os presidentes dos dois países assinaram o Memorando de Islamabad. Dez dias depois, autoridades ampliaram a rota de navegação permitida perto de Omã.

A calmaria chegou ao mercado: em 26 de junho, o Brent tinha caído quase 10% na semana, fechando a US$ 72,60, puxado pela retomada dos embarques no Golfo Pérsico e por avanços nas negociações entre Israel e Hezbollah. A Petrobras, no entanto, rendeu abaixo do Ibovespa naquela semana: PETR4 caiu 1,91% enquanto o índice geral subiu 2,95%, sinal de que o mercado via a trégua como frágil.

8 de julho: o acordo desmorona

A fragilidade se confirmou. Em 8 de julho, o Irã atacou navios comerciais e Trump declarou o cessar-fogo encerrado. Em 27 de junho de Islamabad a 8 de julho de volta à guerra, foram pouco mais de dez dias de rota ampliada. Em 31 de julho, um navio-tanque foi danificado por um projétil, o incidente mais recente registrado no monitoramento internacional da crise.

É nesse cenário que a negociação atual acontece: Steve Witkoff e Jared Kushner conduzem conversas com a equipe iraniana por meio de mediadores, enquanto o porta-voz do Irã, Esmail Baghaei, afirma que as tratativas de Teerã com Omã tratam apenas de uma rota temporária e segura pelo Estreito de Ormuz, sem qualquer compromisso direto com Washington. Em 4 de agosto, agências internacionais registraram que as conversas em Omã avançavam positivamente, ao mesmo tempo em que Trump chamava a liderança iraniana de “extremamente dúbia” e falava numa última chance.

Vista aérea de navios de carga navegando por um estreito entre duas costas, ilustrando o tráfego marítimo em pontos de passagem estratégicos como o Estreito de Ormuz
Crédito: Michael Kabus via Pexels

O que isso custa no bolso do brasileiro

O Estado brasileiro é um dos maiores acionistas da Petrobras, então petróleo mais caro melhora as contas públicas por um lado, mas pressiona o IPCA por outro: cada alta de 1% na gasolina soma 0,05 ponto percentual à inflação, segundo o cálculo que já circulava em março. É esse duplo efeito que explica por que o Boletim Focus vinha subindo a projeção de inflação por semanas seguidas antes do Copom decidir a Selic em junho, e por que o paradoxo entre desemprego baixo e inflação em alta segue sem solução fácil no país.

O choque energético também se soma às tarifas comerciais protecionistas dos Estados Unidos, criando o terreno que analistas já chamam de propício à estagflação: crescimento fraco com inflação persistente. Cada rodada de escalada no Irã reacende essa conta, e cada rodada de trégua a esfria, num ciclo que já vai para o sexto mês sem desfecho.

DataEventoPreço do Brent
Fevereiro/2026Início da guerra (Operação Epic Fury)Pré-crise
Março/2026Pico da crise, Ormuz fechadoUS$ 126
26/06/2026Trégua e reabertura de rotasUS$ 72,60
08/07/2026Colapso do cessar-fogoAlta retomada
03/08/2026Nova rodada de negociaçãoUS$ 83,77

Vale lembrar que esse não é o único front em que o tabuleiro geopolítico mexe com o bolso brasileiro. A disputa comercial entre EUA e China segue seu próprio ritmo, em paralelo a essa crise no Oriente Médio, e as duas coisas juntas ajudam a explicar por que o Copom não consegue relaxar.

E você, sente esse tipo de guerra no preço do posto de gasolina, ou só percebe quando a notícia estampa a capa do jornal?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

Fontes

  • Wikipedia: 2026 Strait of Hormuz crisis: linha do tempo da crise, de fevereiro a 31 de julho de 2026
  • Wikipedia: 2026 Iran war ceasefire: cronologia dos cessar-fogos, do Memorando de Islamabad ao colapso de 8 de julho
  • InfoMoney: petróleo recua quase 5% após Trump suspender ataque ao Irã e retomar negociações (03/08/2026)
  • Seu Dinheiro: Brent volta a nível pré-guerra e Petrobras rende abaixo do Ibovespa (26/06/2026)
  • Gazeta do Povo: o que a guerra no Irã muda no petróleo, no dólar e na inflação brasileira (02/03/2026)
  • CNN: Irã segue conversas sobre Ormuz com Omã, EUA sinaliza otimismo (04/08/2026)

Tópicos