A Bloomberg revelou no dia 9 de junho que a China está fechando os detalhes de um plano de 2 trilhões de yuans, cerca de US$ 295 bilhões, para construir uma rede nacional de data centers de IA. A exigência central do projeto é que pelo menos 80% do hardware e do software, incluindo os chips aceleradores de IA, venha de fornecedores chineses. Se entrar a conta da rede elétrica necessária para sustentar tudo isso, o valor sobe para 5 trilhões de yuans, perto de US$ 740 bilhões.
Eu li esse número umas três vezes antes de entender o tamanho da decisão. A China tem acesso a chips americanos liberado de novo desde o ano passado, e mesmo assim escolheu se fechar por dentro. Isso muda a leitura de toda a disputa: não é só sobre quem vende chip pra quem, é sobre quem decide depender de quem.

O plano de US$ 295 bilhões, por dentro
Quem está desenhando o projeto é a National Development and Reform Commission, o órgão central de planejamento econômico chinês. A operação das instalações fica com as estatais China Mobile e China Telecom, que devem interligar milhares de data centers numa única rede de computação até 2028. A meta declarada é clara: virar referência mundial em capacidade computacional sem depender de chip estrangeiro.
Os nomes que ganham espaço garantido nesse mercado são Huawei, com o chip Ascend 910B, a Alibaba Cloud, com o Hanguang 800, a Biren Technology, com os modelos BR100 e BR104, e a Moore Threads, com o MTT S80. O problema é que nenhum desses chips chega perto do topo de linha americano: o Ascend 910B roda entre 60% e 70% da performance de um Nvidia H100, e executivos chineses do setor já admitiram que o país está de 5 a 10 anos atrás da fronteira tecnológica em silício de data center.
Por que isso acontece bem quando os EUA afrouxaram a mão
O timing é o que torna esse plano interessante de analisar. O governo Trump vinha suavizando as próprias restrições: em julho de 2025 liberou a venda dos chips H20 da Nvidia e MI308 da AMD, modelos feitos sob medida para passar pelo limite de exportação, em dezembro aprovou o H200, e em maio de 2026 autorizou a venda do H200 para dez empresas chinesas especificamente. Em agosto de 2025 o Tesouro americano passou a cobrar uma taxa de 15% sobre essas vendas de chip pra China, embolsando parte do lucro de qualquer jeito.
Então o chip americano estava, na prática, disponível com taxa e tudo. E a China decidiu blindar 80% do próprio mercado de qualquer forma. Pra mim isso é o detalhe que separa política industrial de geopolítica de fato: a China não está reagindo a uma restrição, está construindo uma saída permanente da dependência, taxa ou não taxa.

Minha leitura: isso não é defesa, é desacoplamento deliberado
Eu já tinha escrito aqui sobre como o Stargate de Trump travou enquanto a DeepSeek avançou, e o padrão se repete: cada vez que os EUA tropeçam na própria execução, a China usa a janela pra avançar política industrial, não pra comprar tempo. Um plano de US$ 295 bilhões com meta de 80% de chip nacional não é uma rede de segurança contra sanção futura. É uma declaração de que a China aposta ganhar a corrida de silício sendo dona da própria infraestrutura, mesmo rodando hardware mais fraco por uns anos.
O contraste com o Stargate americano, orçado em US$ 500 bilhões ao longo de quatro anos, ajuda a entender a escala: a China está comprometendo um valor parecido, mas amarrado à condição de que o dinheiro fique dentro de casa. Isso é uma escolha política tanto quanto industrial.
| Plano | Valor | Condição |
|---|---|---|
| Rede de data centers da China | US$ 295 bi (até US$ 740 bi com energia) | 80% do hardware deve ser chinês |
| Stargate (EUA) | US$ 500 bi em 4 anos | aberto a fornecedores como Nvidia e AMD |
O que isso significa pro resto do mundo
- Nvidia e AMD perdem, na prática, acesso ao maior projeto de compra de chip de IA do mundo, mesmo com a venda autorizada pelos EUA.
- Países que dependem de matéria-prima pra essa disputa, como o Brasil nas terras raras e nos data centers da corrida de IA, ganham peso de negociação dos dois lados.
- A diferença de performance entre chip chinês e chip americano (60% a 70% do H100) deve seguir existindo por anos, então o plano troca eficiência por autonomia.
- A taxa de 15% que o Tesouro americano cobra hoje sobre chip vendido pra China perde relevância se a China comprar cada vez menos chip americano por decisão própria.
E você, acha que a China consegue rodar essa rede de data centers só com chip nacional sem perder a corrida da IA pros EUA?
Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.
Fontes
- Yahoo Finance: China plans $295 billion national AI data center grid using domestic technology (09/06/2026)
- Abhishek Gautam: China $295B AI grid, locking out Nvidia (23/06/2026)
- Built In: Trump lifted the AI chip ban on China, clearing Nvidia and AMD to resume sales (atualizado em 15/05/2026)





