Brasil na corrida da IA: o que já saiu do papel entre data centers bilionários e o plano de R$ 23 bilhões

Brasil tem cerca de 200 projetos de data centers, R$ 23 bilhões no plano de IA e incentivo do Redata. Veja o que já saiu do papel na corrida da IA

Corredor de data center com racks de servidores e cabos de rede, representando a infraestrutura de TPUs por tras de modelos de IA

Quando o assunto é IA, a gente costuma olhar para fora: OpenAI, Anthropic, Google. Mas esta semana parei para somar o que está acontecendo aqui dentro, e o número surpreende. O Brasil tem cerca de 200 empreendimentos de data centers em andamento, com previsão de R$ 60 bilhões a R$ 100 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos, segundo o Ministério das Comunicações. No mundo, o setor deve receber US$ 3 trilhões em cinco anos, de acordo com relatório da Moody’s citado pelo governo.

O Brasil ocupa hoje a 12ª posição no ranking global de data centers, mas lidera a América Latina, concentrando metade do mercado regional. A pergunta que eu quero responder neste texto, de forma direta: o que já saiu do papel de verdade, e o que ainda é promessa?

Corredor de data center com racks de servidores e cabos de rede, infraestrutura que sustenta a corrida da IA no Brasil
Crédito: Brett Sayles via Pexels

O plano oficial: PBIA em números

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o PBIA, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, prevê R$ 23 bilhões em quatro anos. Só que prometer é uma coisa e garantir é outra: até o balanço divulgado em dezembro de 2025, o valor assegurado era de R$ 6,47 bilhões, sendo R$ 4,5 bilhões em financiamentos da Finep e R$ 1,2 bilhão do BNDES.

Das 54 ações estruturadas do plano, 25 já tinham entregas concluídas e outras 15 estavam iniciadas. Entre as entregas, a atualização do supercomputador Santos Dumont. O plano se organiza em cinco eixos: infraestrutura, formação e capacitação, serviços públicos, inovação empresarial e apoio à regulação. Sobre esse último ponto, já contei aqui o que a lei da IA realmente proíbe no Brasil.

Os data centers que estão saindo do chão

Enquanto o plano federal caminha, o setor privado acelera. Reportagem da jornalista Larissa Bernardes, do Seu Dinheiro, mapeou os principais projetos em construção no país:

ProjetoOndeNúmeros
RT-OneMaringá (PR) e Uberlândia (MG)R$ 6 bilhões, primeiro data center dedicado a IA da América Latina, conclusão prevista para 2026
Rio AI City (Elea)Jacarepaguá (RJ)4 unidades, 1.500 MW iniciais (consumo de cerca de 6 milhões de casas), podendo chegar a 3.200 MW
Scala AI CityEldorado do Sul (RS)1.800 MW iniciais, com teto de 5.000 MW até 2033
ByteDanceCaucaia (CE)Obras iniciadas em janeiro de 2026

Para dar escala: o vice-presidente Geraldo Alckmin declarou, em setembro de 2025, que “há uma expectativa de que o Brasil possa atrair R$ 2 trilhões em investimentos ao longo de 10 anos”. É o mesmo movimento global que descrevi quando analisei o acordo de 13,5 gigawatts entre Anthropic, Google e Amazon: a corrida da IA virou, na prática, uma corrida por energia e concreto.

Redata: o empurrão fiscal de R$ 5,2 bilhões

Em janeiro, o governo detalhou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center, o Redata, com R$ 5,2 bilhões reservados no orçamento de 2026 para incentivar novos empreendimentos. O benefício fiscal vale por cinco anos, mas tem contrapartidas duras: o projeto precisa rodar com 100% de energia renovável e cumprir padrões rígidos de eficiência hídrica. Quem descumprir paga os impostos de volta, com efeito retroativo.

O ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, resumiu a aposta: “O Brasil é um país muito atrativo para a infraestrutura de data centers”. A matriz elétrica majoritariamente renovável é o trunfo que nenhum concorrente direto tem no mesmo tamanho. Ainda tramita no Congresso o PL 3018/2024, que quer regular especificamente os data centers dedicados a IA.

Torre de transmissão de energia elétrica contra céu ao entardecer, símbolo do gargalo energético dos data centers de IA
Crédito: Nekib Ahmed via Pexels

A conta de energia e água que ninguém quer pagar

Aqui mora o lado incômodo da história. Os números de consumo são de outro planeta: só a primeira fase do Rio AI City equivale ao consumo elétrico de cerca de 6 milhões de residências, e a de Eldorado do Sul, a 7,2 milhões. E tem a água. A reportagem do Seu Dinheiro cita estudo da Universidade da Califórnia segundo o qual o GPT-3 consome aproximadamente 500 ml de água a cada 10 a 50 respostas, e grandes instalações chegam a consumir milhões de litros por dia.

Em Caucaia, no Ceará, a comunidade indígena Anacé manifestou preocupação com o uso da água da Lagoa do Cauípe pelo data center da ByteDance. É um conflito que tende a se repetir: o Redata exige eficiência hídrica no papel, mas a fiscalização disso na prática ainda vai ser testada.

E os empregos nessa história?

Levantamento publicado pela EAD Intec, escola técnica da área, aponta que o Brasil recebeu anúncios de mais de R$ 150 bilhões em data centers nos últimos dois anos e que as contratações ligadas à infraestrutura digital cresceram acima de 20% ao ano entre 2023 e 2025. Um data center médio cria entre 150 e 500 empregos diretos na construção e entre 50 e 200 postos permanentes na operação. O salário de um técnico de operações varia entre R$ 3.500 e R$ 7.000 mensais, conforme especialização e região.

O gargalo apontado pelo setor é a escassez de mão de obra qualificada. Em outras palavras: o prédio sobe rápido, formar gente demora. Se você quer entender como a IA já mudou o dia a dia por aqui antes de pensar em carreira na área, recomendo o guia direto que publiquei sobre a IA no Brasil em 2026.

O que separa o Brasil de virar potência de verdade

Meu resumo honesto da situação, depois de cruzar todas essas fontes:

  • O que já é real: 200 empreendimentos mapeados, obras em quatro estados, Redata no orçamento e supercomputador Santos Dumont atualizado
  • O que é meta: os R$ 23 bilhões do PBIA, dos quais R$ 6,47 bilhões estavam garantidos no último balanço, e os R$ 2 trilhões em dez anos citados por Alckmin
  • O que é risco: energia e água em escala inédita, conflitos socioambientais como o de Caucaia e a falta de gente formada para operar tudo isso

A diferença entre a 12ª posição atual e um lugar entre os grandes vai se decidir menos nos anúncios e mais na execução: dinheiro garantido, licença ambiental bem feita e técnico formado.

E você, acha que o Brasil consegue transformar energia renovável barata em protagonismo na IA, ou vamos virar só o terreno onde as big techs constroem seus galpões?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

Fontes

  • Agência Gov — US$ 3 trilhões em data centers e posição do Brasil na América Latina (janeiro/2026)
  • Seu Dinheiro — projetos de data centers de IA no Brasil e impacto ambiental, por Larissa Bernardes (12/03/2026)
  • IA Brasil Notícias — balanço do PBIA: 54 ações e R$ 6,47 bilhões garantidos (23/12/2025)
  • EAD Intec — empregos e salários em data centers no Brasil (acessado em 12/06/2026)

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