A dupla face da guerra EUA-China: a trégua comercial existe, mas a guerra de chips não parou

Trump e Xi fizeram as pazes em outubro de 2025 em Busan. Mas os chips de IA seguem proibidos e os EUA apertaram os controles em junho de 2026.

Close-up de placa-mae com microchips e circuitos, representando a disputa por semicondutores de IA entre China e EUA

No dia 30 de outubro de 2025, Donald Trump e Xi Jinping se encontraram numa base aérea em Busan, Coreia do Sul. Foi o primeiro encontro entre os dois presidentes em seis anos. Trump declarou que foi uma reunião “incrível.” Xi pediu que as equipes “apresentem resultados concretos o mais rapidamente possível.” Saíram de lá com um pacote de acordos: soja americana voltou a entrar na China, restrições a terras raras foram suspensas, e as tensões tarifárias que vinham escalando esfriaram.

Dois meses depois, em 23 de dezembro de 2025, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) lançou uma ação formal sobre semicondutores fabricados na China, com prazo de aumento tarifário fixado para 23 de junho de 2027. Em maio de 2026, mais 17 empresas chinesas entraram na lista negra americana por suspeita de desenvolver sistemas de vigilância com IA. Em 17 de junho de 2026, os EUA expandiram os controles de exportação: qualquer chip acima de 100 TFLOPS de capacidade computacional passou a exigir licença especial antes de chegar a entidades com vínculos suspeitos.

A trégua existe. A guerra de chips não parou. Esse é o paradoxo central da relação entre as duas maiores economias do mundo em 2026.

Close-up de placa-mae com microchips e circuitos, representando a disputa por semicondutores de IA entre China e EUA

Por que chips e não soja são o centro do conflito

A soja é commodity. Cai o preço, o comprador troca de fornecedor, o mercado se ajusta. Semicondutores avançados são diferentes: não existem substitutos imediatos, os processos de fabricação levam décadas para dominar, e quem controla os chips mais poderosos controla quem consegue desenvolver IA, sistemas de armas autônomas e infraestrutura crítica.

A investigação do USTR deixou isso claro em números: 66% dos produtos americanos analisados contêm chips fabricados em fundições chinesas. E a China não esconde o objetivo: a meta declarada é capturar 56% do mercado global de semicondutores através de políticas industriais agressivas. Para os EUA, isso não é concorrência comercial. É risco de segurança nacional.

Por isso a trégua em Busan coexiste com a guerra tecnológica: soja e terras raras são negociáveis, chips de IA não são. Os americanos estão dispostos a aliviar tarifas sobre geladeiras e tênis. Não estão dispostos a abrir mão do controle sobre os processadores que vão rodar os sistemas militares e de vigilância da próxima década.

O que a China fez enquanto os EUA apertavam os controles

A China não ficou parada. Em maio de 2024, o governo anunciou o Big Fund III: 344 bilhões de yuans, equivalentes a US$ 47,5 bilhões, destinados a subsidiar a indústria de semicondutores doméstica. É o maior fundo de investimento em chips da história chinesa. O plano total da China para a disputa de chips chega a US$ 295 bilhões quando somados todos os programas ativos.

Os resultados são reais, mas limitados. A SMIC, principal fabricadora de chips da China, alcançou produção em volume de seu processo N+2, equivalente a 7 nanômetros, usado principalmente nos chips Kirin 9000S da Huawei. O problema: estimativas da indústria colocam o rendimento de produção abaixo de 50%, contra mais de 90% da TSMC em nós comparáveis. Velocidade e custo por chip ainda estão distantes da fronteira tecnológica.

Onde a China avançou mais foi nos chips de IA para consumo doméstico. A série Ascend 910C da Huawei vendeu 250.000 unidades apenas no primeiro trimestre de 2026, elevando a participação de mercado da empresa nos servidores de IA dentro da China de 12% no quarto trimestre de 2025 para 18% em março de 2026. É crescimento acelerado em mercado fechado por restrição americana.

Sala de servidores moderna com racks de rede e cabos, representando os investimentos da China em infraestrutura de data centers

O lado americano: quanto está sendo investido e com que resultado

Os EUA aprovaram o CHIPS Act com dotação total de US$ 52,7 bilhões. Até junho de 2026, US$ 19 bilhões foram desembolsados ou comprometidos formalmente, financiando novas fábricas da TSMC no Arizona, da Intel em Ohio e da Samsung no Texas. É o maior programa de reindustrialização de semicondutores dos EUA em décadas.

Mas o investimento em infraestrutura caminha lento. O Stargate, projeto de US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA anunciado no início de 2025, enfrenta obstáculos de execução que mostram a dificuldade de reconverter capacidade industrial em tempo de paz para uma corrida tecnológica com lógica de emergência nacional.

Na frente de restrições, a estratégia americana tem sido consistente: apertar progressivamente, empresa por empresa. A entidade conhecida como Entity List, que proíbe exportações americanas para empresas listadas, ganhou 17 novos nomes chineses só em maio de 2026, todos relacionados a sistemas de vigilância baseados em IA. Em junho, os controles foram estendidos para chips computacionais de alta capacidade.

Comparativo: quem leva vantagem em cada frente

FrenteEUAChina
Chips de ponta (sub-5nm)Controla via TSMC e restriçõesDependente de tecnologia externa
Chips para IA domésticaNvidia bloqueada no mercado chinêsHuawei Ascend avança (18% de market share)
Investimento públicoUS$ 19B desembolsados do CHIPS ActUS$ 47,5B no Big Fund III
Fabricação em escalaTSMC 90%+ de rendimentoSMIC abaixo de 50% em 7nm
Relações diplomáticasTrégua negociada em BusanTrégua negociada em Busan

O que muda para o Brasil nessa disputa

O Brasil está no meio sem ter escolhido um lado formalmente, e isso tem consequências práticas. O país virou objeto de disputa direta na questão das terras raras, minerais essenciais para produzir chips e baterias, com EUA e China cortejando o governo brasileiro para garantir acesso às reservas.

Na indústria, empresas brasileiras que compram chips para linha de produção podem ser afetadas pelas tarifas americanas sobre semicondutores de “nó maduro” chineses, que têm prazo de aumento para junho de 2027. Automotivo, agronegócio e telecomunicações são os setores mais expostos, segundo a própria investigação da USTR.

E há a questão geopolítica mais ampla: em que medida o Brasil consegue manter relações comerciais profundas com a China em tecnologia enquanto depende de chips e infraestrutura digital com componentes americanos? Não é uma pergunta com resposta simples. Mas é uma pergunta que vai ficar cada vez mais difícil de evitar.

E você: acha que o Brasil deveria tomar posição clara nessa disputa, ou a neutralidade estratégica ainda é o melhor caminho?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

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