Terras raras: por que o Brasil virou a bola da vez na disputa bilionária entre EUA e China

A China controla 91% do refino de terras raras. O Brasil tem 24% das reservas mundiais e virou o alvo bilionário de Trump e Lula.

Vista aerea de mina a ceu aberto com terracos de escavacao representando a extracao de minerais criticos

Na última semana de maio, a Câmara dos Deputados aprovou o marco legal dos minerais críticos no Brasil. O timing não foi coincidência: um encontro entre Lula e Trump estava na agenda, e terras raras, lítio e nióbio estariam entre os temas centrais da reunião. O Brasil concentra 24% das reservas mundiais de terras raras e mais de 98% de todo o nióbio do planeta, e isso colocou o país no centro de uma disputa que envolve baterias, satélites, veículos elétricos e sistemas militares de última geração.

De um lado, os Estados Unidos, que em 2025 dependiam de importações para 67% do consumo de terras raras e para 100% de certos elementos críticos. Do outro, a China, que construiu ao longo de décadas uma posição quase incontestável: controla 91% de todo o refino de terras raras do mundo, segundo a Agência Internacional de Energia. No meio desse tabuleiro, o Brasil, com o solo cheio de riquezas que, até recentemente, exportava quase tudo em estado bruto para compradores chineses.

Vista aerea de mina a ceu aberto com terracos de escavacao representando a extracao de minerais criticos
Crédito: Vlad Chetan via Pexels

O que são minerais críticos, afinal?

Terras raras não são exatamente “terras” nem são “raras”. São um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e condutoras únicas, essenciais para fabricar ímãs de alta performance, lasers, baterias de lítio, turbinas eólicas e sistemas de guiamento de mísseis. A Agência Brasil distingue três categorias: minerais de terras raras (os 17 elementos), minerais estratégicos (essenciais para o desenvolvimento econômico) e minerais críticos (aqueles com risco de abastecimento por concentração geográfica ou instabilidade geopolítica). Lítio, nióbio, cobalto, grafite e níquel entram nessa última lista.

O que torna esses materiais estratégicos é a combinação de demanda crescente com oferta altamente concentrada. Não é como o petróleo, onde muitos países produzem e competem entre si. Com terras raras, a cadeia produtiva inteira passa, em larga medida, pela China.

Como a China construiu esse domínio

A dominância chinesa sobre as terras raras não veio só da geologia. Nos anos 1980 e 1990, enquanto o mundo ocidental fechava minas de terras raras por pressão de custo, a China subsidiou a cadeia inteira: extração, processamento, refino e manufatura. Resultado em 2025: a China controla 60% da produção mineral bruta e mais de 91% do refino, que é a etapa que define quem tem poder de barganha de verdade.

Em 2025, os EUA importavam 67% das terras raras que consumiam. Para certos elementos da lista crítica, a dependência era de 100%, com 71% das importações vindo da China (incluindo Hong Kong), segundo dados do próprio governo americano. Quando Washington impôs tarifas a Pequim, a China respondeu com restrições de exportação de terras raras. Foi o gesto mais efetivo da escalada comercial e o que acelerou a corrida por fornecedores alternativos.

O Brasil entra no tabuleiro

A Serra Verde, mineradora brasileira com operações em Minaçu (GO), era pouco conhecida fora do setor. Isso mudou em fevereiro de 2026, quando a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (DFC) injetou US$ 565 milhões na empresa e garantiu participação acionária americana. Em seguida, a Serra Verde foi adquirida pela USA Rare Earth em operação avaliada em US$ 2,8 bilhões.

O negócio tem contexto claro: em 2025, o Brasil exportou US$ 12 milhões em terras raras, sendo 99,4% do volume destinado a compradores chineses. No fim do mesmo ano, a Serra Verde anunciou que encerraria seu contrato de fornecimento para a China até o final de 2026. Washington está tentando redirecionar o fluxo.

Escavadeira operando em pedreira de rocha com terreno rugoso representando mineracao de minerais estrategicos
Crédito: Enrique via Pexels

O que o Brasil ganha, e o que pode perder

A aprovação do marco legal dos minerais críticos pela Câmara em maio de 2026 é um passo necessário, mas o problema histórico do Brasil com mineração é a exportação de commodities sem valor agregado. Lítio sai como minério. Terras raras saem como concentrado. Nióbio sai sem ter virado aço especial. O lucro fica fora do Brasil.

Se a negociação com os EUA resultar apenas em troca de acesso por acesso, o país dá o minério e recebe isenção de tarifa, o Brasil pode estar trocando uma dependência por outra. A mesma crítica que analistas fazem ao modelo histórico do agronegócio se aplica aqui: exportar matéria-prima barata e importar produto industrializado caro. Como a tensão no Estreito de Ormuz mostrou em 2025, o Brasil é afetado por crises geopolíticas mesmo quando não é parte direta delas. Controlar a cadeia dos próprios minerais seria uma das formas de mudar esse cenário.

A negociação que vai definir o próximo capítulo

O encontro Lula-Trump com minerais críticos na pauta acontece num momento em que os dois países precisam também resolver as tarifas comerciais impostas por Washington. Isso cria uma dinâmica de barganha incomum: o Brasil tem algo que os EUA precisam urgentemente, mas depende dos EUA para se proteger de tarifas que pressionam exportações brasileiras. Quem cede mais define a qualidade do acordo.

A China não vai reagir de forma passiva. Já usou restrições de exportação de terras raras como arma comercial em 2025, e o Brasil é parceiro estratégico do BRICS, bloco em que Pequim tem peso central. Assim como o BRICS Pay busca alternativas ao dólar nas transações internacionais, o Brasil precisará construir alternativas para não ficar preso a apenas um polo dessa disputa.

E você, acha que o Brasil tem condições reais de negociar esses acordos de minerais críticos sem repetir o erro histórico de exportar riqueza bruta sem agregar valor?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

Fontes

  • Brasil de Fato — Terras raras, nióbio e lítio: por que MG e o Brasil estão na mira de Trump (22/01/2026)
  • O Tempo — Trump, China e Lula: o jogo bilionário das terras raras (18/05/2026)
  • Agência Brasil — Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças (25/04/2026)

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