Estreito de Ormuz no limite: o acordo que Trump promete e o que a guerra no Irã já mudou no seu bolso

Guerra EUA-Irã fechou o Estreito de Ormuz: tráfego caiu de 84 para 5 navios por dia. Trump diz que o acordo está pronto. Veja o que muda para o Brasil.

Navio petroleiro navegando no oceano ao por do sol, representando as rotas maritimas em disputa no Estreito de Ormuz

Na segunda-feira, 23 de maio, Trump apareceu em público dizendo que o acordo com o Irã estava “praticamente negociado” e que o Estreito de Ormuz seria reaberto em breve. Fui direto conferir os números. Três meses de conflito reduziram o tráfego no Estreito de 84 navios por dia para apenas 5. Esse não é um detalhe técnico de geopolítica: é a rota por onde passa entre 20% e 35% de todo o petróleo que circula no planeta.

Quando uma via dessas trava, o efeito não fica confinado no Golfo Pérsico. Chega no preço do combustível, no câmbio, no frete, no supermercado. E qualquer pessoa que tenha acompanhado o Brent subir 13% nos primeiros dias de março, quando a “Operação Epic Fury” começou, sabe que não estou exagerando.

Navio petroleiro navegando no oceano ao por do sol, representando as rotas maritimas em disputa no Estreito de Ormuz
Crédito: Punit Singh via Pexels

O que é o Estreito de Ormuz e por que 40 km de largura movem o mundo

O Estreito de Ormuz é um corredor marítimo de aproximadamente 40 km de largura entre o Irã e a península de Omã, ligando o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Em 2025, por ali passavam em média 84 embarcações por dia, carregando petróleo do Irã, Iraque, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes. Não existe alternativa logística que absorva esse volume: os outros dutos e rotas alternativas cobrem, na melhor das hipóteses, 30% do que o Estreito movimenta.

Quando EUA e Israel lançaram ataques coordenados ao Irã em 28 de fevereiro de 2026, o Irã respondeu fechando o Estreito. Não simbolicamente: o tráfego desabou para 5 navios por dia até o final de abril, segundo dados do Observatório de Política Externa do Brasil. Os seguros de guerra para embarcações na região subiram 300%. O bloqueio americano chegou a redirecionar 100 navios comerciais que tentavam acessar portos iranianos.

Como chegamos até aqui: da Operação Epic Fury ao cessar-fogo frágil

A “Operação Epic Fury” começou em 28 de fevereiro de 2026, com ataques aéreos de EUA e Israel a instalações militares e de enriquecimento nuclear do Irã. A resposta iraniana foi imediata: bloqueio do Estreito e disparos de mísseis contra bases americanas no Golfo. A cotação do Brent subiu entre 7% e 13% nas primeiras 48 horas, o real passou de R$ 5,13 para cerca de R$ 5,20, e o IPCA-15 de fevereiro fechou em 4,10%, acima da meta.

Um cessar-fogo frágil foi firmado em 8 de abril, mas os ataques pontuais não pararam. Na última semana de maio, forças americanas atingiram sítios de lançamento de mísseis iranianos e embarcações no Estreito. O Irã ameaçou retaliar. Paralelamente, as negociações continuam via Paquistão como mediador, com o secretário de Estado Marco Rubio afirmando ter havido “progresso significativo” nos últimos dias.

Vista aerea de navio petroleiro navegando no oceano, ilustrando o transporte maritimo de petroleo afetado pela guerra EUA-Ira
Crédito: DeLuca G via Pexels

O que Trump diz estar “praticamente fechado”

Em 23 de maio, Trump anunciou publicamente que o acordo com o Irã estava “largamente negociado” e que o Estreito de Ormuz seria reaberto em breve. Os termos colocados pela Casa Branca são três: o Irã não pode desenvolver arma nuclear, tem que entregar seu estoque de urânio enriquecido e precisa desmantelar os centros de Natanz, Fordow e Isfahan. Trump descreveu o processo como o “oposto exato” do acordo nuclear de 2015.

Do lado iraniano, a principal exigência é o desbloqueio de ativos financeiros congelados pelo Ocidente. Em 24 de maio, agências iranianas acusaram Washington de obstruir essa cláusula. O que existe de concreto, por enquanto, é o cessar-fogo instável, mediação em andamento e nenhum documento assinado. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã foi direto: “dizer que a assinatura de um acordo é iminente — ninguém pode fazer essa afirmação”. Já vi Trump anunciar acordos como concluídos antes de estarem. Esse roteiro é familiar.

O que a guerra já mudou na economia global

IndicadorImpacto
Brent (início do conflito, fev/2026)Alta de 7% a 13% em 48 horas
Previsão Brent 2026 (cenário base)US$ 86/barril (vs. US$ 69 em 2025)
Brent no cenário de escaladaPode chegar a US$ 115/barril
Preços de energia global+24% em 2026 (Banco Mundial, abr/2026)
Crescimento global se conflito encerrar logo3,1% em 2026 (FMI)
Crescimento global se conflito persistir2% em 2026, inflação acima de 6% em 2027

O Banco Mundial projeta alta de 24% nos preços de energia em 2026, com o cenário mais otimista dependendo de uma resolução do conflito antes de junho. A Lufthansa cortou rotas. Governos europeus iniciaram planejamento de racionamento de combustível. A UE acelerou investimentos em renováveis com a iniciativa “AccelerateEU”, resposta direta à vulnerabilidade que o conflito expôs. A crise mostrou, de forma brutal, o que significa depender de uma única via de escoamento para um terço do petróleo mundial.

E o Brasil, como fica?

O Brasil ocupa uma posição curiosa nesse cenário: é exportador líquido de petróleo, o que amortece o impacto direto. Quando o Brent sobe, a Petrobras arrecada mais e o governo federal recebe dividendos maiores. Do ponto de vista das contas públicas, o conflito tem um efeito paradoxalmente positivo no curto prazo, desde que o câmbio não desancore.

E aí está o risco: o dólar pressiona. No início do conflito, o real saiu de R$ 5,13 para cerca de R$ 5,20 em poucos dias. Combustíveis, fretes e insumos importados sentem. O Ibovespa oscilou bastante num ambiente de incertezas globais que já estava pesado antes da guerra. O Copom, que já tinha o IPCA-15 acima da meta em fevereiro, precisa calibrar os próximos movimentos de juros num cenário onde qualquer escalada no Oriente Médio pode reacender a inflação.

O Brasil não está imune, mas está em posição menos exposta do que países sem produção própria de petróleo. Isso não é conforto, é um ponto de partida melhor do que o de boa parte do mundo.

E você, acha que o acordo entre EUA e Irã vai se concretizar, ou isso vai se arrastar por meses como tantos outros anúncios de Trump?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

Fontes

  • Gazeta do Povo — Do Irã ao seu bolso: o que a guerra no Oriente Médio muda no Brasil (02/03/2026)
  • CNN Brasil — Guerra no Irã: Banco Mundial prevê alta de 24% nos preços de energia (28/04/2026)
  • Al Jazeera — US says Iran deal agreed as Tehran accuses Washington of obstruction (24/05/2026)
  • OPEB — A guerra de EUA e Israel ao Irã e os impactos na economia política internacional da energia (09/05/2026)
  • CBS News — Iran-U.S. negotiators have agreed to broad principles of agreement (25/05/2026)

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