Em abril de 2026, o IBGE divulgou o resultado da PNAD Contínua do primeiro trimestre: a taxa de desemprego ficou em 6,1%, o menor nível para um primeiro trimestre desde que a pesquisa começou, em 2012. O Brasil tem 102 milhões de pessoas ocupadas e 39,2 milhões com carteira assinada, também recordes. Ao mesmo tempo, a projeção do mercado financeiro para a inflação chegou a 5,09% em 2026, com 79% de probabilidade de estourar o teto da meta, que é de 4,5%. São boas notícias no emprego e um problema nos preços, e a ligação entre eles não é intuitiva.
Muita gente ouve essas duas informações e acha que alguém está errado. Ou o emprego está alto e as coisas vão bem, ou a inflação está alta e as coisas vão mal. Mas é exatamente aí que a economia surpreende: as duas coisas não só podem acontecer juntas como, em certas condições, uma contribui para a outra. Entender esse mecanismo é entender por que o Banco Central mantém os juros em 14,25% ao ano mesmo com a economia crescendo.

Os números que mostram o paradoxo
No quarto trimestre de 2025, a taxa de desemprego chegou a 5,1%, o menor patamar da série histórica do IBGE, iniciada em 2012. No primeiro trimestre de 2026 ela subiu para 6,1%, mas isso reflete um comportamento sazonal típico: o início do ano é sempre mais fraco para emprego por causa do encerramento dos contratos temporários do fim de ano. Comparado ao mesmo trimestre de 2025, quando o desemprego era de 7%, a queda é expressiva.
Do outro lado, o IPCA projetado para 2026 chegou a 5,09% no Boletim Focus de 1º de junho, divulgado pelo Banco Central. Foi a décima segunda semana consecutiva de alta na projeção. A meta de inflação do Brasil é de 3% ao ano, com uma banda de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo, definindo um teto de 4,5%. Estamos acima dele nas projeções, e a probabilidade de fechar o ano assim chegou a 79%, segundo o próprio Banco Central no Relatório de Inflação de junho.
No mesmo período, o Banco Central elevou a projeção de crescimento do PIB de 1,6% para 2%, depois que o primeiro trimestre cresceu 1,1%. Temos mais gente empregada, economia crescendo e inflação acima da meta ao mesmo tempo. Isso não é um acidente, como veremos a seguir. Se você quiser entender o lado do crescimento com desigualdade, escrevemos sobre por que o PIB cresce mas o bolso não sente.
Por que emprego baixo pode fazer a inflação subir
O mecanismo é simples de entender sem nenhuma fórmula. Quando há poucas pessoas desempregadas, os trabalhadores têm mais poder de barganha: conseguem exigir salários mais altos porque o empregador não tem tantas pessoas disponíveis para substituí-los. Salários maiores significam que as pessoas têm mais dinheiro no bolso para gastar.
Com mais gente comprando, as empresas percebem que a demanda está alta. Em vez de vender mais unidades pelo mesmo preço, muitas optam por manter o volume e cobrar mais caro. Os preços sobem. Isso acontece com força especialmente em serviços, que dependem muito de mão de obra e que foram um dos principais fatores do IPCA elevado neste ciclo.
No caso brasileiro de 2026, há um fator externo que soma pressão: o conflito no Oriente Médio está mantendo o preço do petróleo elevado, o que pressiona os combustíveis e, por consequência, o frete, o transporte e qualquer produto que precise ser levado de um lugar para outro. Essa pressão externa chegou junto com um mercado de trabalho aquecido, e os dois se somaram.

A meta de inflação e a Selic como resposta
O Brasil adota um sistema de metas de inflação desde 1999. A ideia é simples: o governo define um alvo para a variação de preços, e o Banco Central usa os instrumentos que tem para perseguir esse alvo. Desde 2025, o sistema funciona com meta contínua de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cada lado. O teto é 4,5%. Estamos acima disso nas projeções atuais.
Quando a inflação ameaça sair da banda, o Banco Central precisa responder publicamente: explicar o que está acontecendo e qual é o plano. O principal instrumento é a taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano. Com ela nesse patamar, o crédito fica mais caro: as pessoas e empresas compram menos no parcelado, pegam menos empréstimos, constroem menos. A demanda esfria. E com demanda menor, as empresas têm mais dificuldade de repassar aumentos de preço.
É uma freada econômica deliberada. O problema é que freada econômica significa custo maior para quem tem dívida ou precisa de crédito. Por isso a Selic alta é sempre um tema político além de econômico, e a decisão de quanto apertar os juros é uma das mais difíceis que o Banco Central enfrenta. Detalhamos essa tensão em outro texto: por que o Banco Central está encurralado e o que muda no seu bolso.
O que isso significa para quem está trabalhando e para quem está comprando
Para quem está empregado, o cenário não é ruim: há mais vagas formais, mais opções no mercado de trabalho e, em muitos casos, mais poder de negociação salarial. O cuidado é que salário nominalmente maior não garante poder de compra real se a inflação comer a diferença. Uma alta salarial de 6% num ano em que os preços sobem 5% representa ganho real de apenas 1%. Parece pouco, mas ainda é ganho.
Para quem está comprando, especialmente alimentos e serviços, o aperto é real. A pressão dos preços no setor de serviços é uma das mais difíceis de reverter porque não depende só de commodities importadas: depende de salários, aluguéis e custos que sobem junto com a atividade econômica aquecida.
E para quem tem dívidas, a Selic em 14,25% é o impacto mais direto. Quem depende de crédito para investir, comprar imóvel ou pagar o cartão rotativo sente isso imediatamente. O Boletim Focus de junho mostra que o mercado segue pessimista com a trajetória da inflação, o que reduz as apostas em cortes de juros no curto prazo.
| Indicador | Dado | Contexto |
|---|---|---|
| Desemprego Q1 2026 | 6,1% | Menor 1º trimestre desde 2012 |
| Desemprego Q4 2025 | 5,1% | Mínimo histórico da série IBGE |
| Pessoas ocupadas | 102 milhões | Recorde histórico |
| Com carteira assinada | 39,2 milhões | Maior número desde 2012 |
| IPCA projetado 2026 | 5,09% | Acima do teto da meta (4,5%) |
| Probabilidade de estouro da meta | 79% | Era 30% no relatório de março |
| PIB projeção 2026 | 2,0% | Elevado de 1,6% pelo Banco Central |
| Taxa Selic | 14,25% a.a. | Principal instrumento contra inflação |
E você: sente mais o impacto pelo lado do emprego, com mais oportunidades, ou pelo lado dos preços, com o carrinho do mercado pesando mais?
Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.
Fontes
- Agência Brasil: Desemprego no 1º trimestre é de 6,1%, o menor já registrado no período, dados da PNAD Contínua/IBGE (Abril/2026)
- Agência Brasil: Mercado financeiro eleva previsão da inflação para 5,09% este ano, Boletim Focus (01/06/2026)
- Agência Brasil: Banco Central prevê crescimento de 2% para o PIB em 2026, Relatório de Inflação com probabilidade de estouro da meta (Junho/2026)





