Na segunda-feira (26), enquanto o noticiário ainda digeria o resultado da eleição, o Itaú Unibanco publicou um fato relevante que me fez parar tudo: o banco vai comprar 100% da NeoSpace, uma startup brasileira de inteligência artificial, por R$ 2.925.000.000. Uma parcela é paga no fechamento e o restante fica diferido em cinco anos, sujeito a condições. O negócio ainda depende do aval do Cade e do Banco Central.
O que chama atenção é a velocidade. Segundo o NeoFeed, em janeiro de 2025 a NeoSpace foi avaliada em US$ 100 milhões, numa rodada de US$ 18 milhões liderada pelo próprio Itaú, que pagou US$ 15 milhões por 15% da empresa, segundo o Times Brasil. Menos de dois anos depois, o banco aceita pagar R$ 2,925 bilhões pela totalidade das ações. Para entender por que, é preciso entender o que a NeoSpace faz, e isso exige separar dois conceitos que costumam aparecer misturados.

O que é um modelo fundacional, explicado sem jargão
O fato relevante descreve a NeoSpace como especializada em modelos fundacionais treinados com grandes volumes de dados. Modelo fundacional é a base sobre a qual se constroem os assistentes e aplicativos de IA. O ChatGPT, por exemplo, roda sobre modelos desse tipo, treinados principalmente com texto.
A diferença da NeoSpace está no tipo de dado. A startup batizou sua arquitetura de Large Data Model, um “grande modelo de dados”, em oposição ao Large Language Model, o “grande modelo de linguagem” por trás dos chatbots. Segundo o NeoFeed, o LDM analisa qualquer formato de dado ou documento, e não apenas linguagem. O cofundador Felipe Almeida resumiu assim ao Times Brasil: “Os modelos de linguagem usados no dia a dia foram desenvolvidos sobretudo para processar texto”.
Na prática, pensa no que um banco tem guardado: anos de transações, pagamentos de fatura, atrasos, compras no cartão, movimentações de Pix. Isso não é texto, e não está na internet onde os grandes modelos aprendem. O Times Brasil descreve um dos métodos da NeoSpace: usar 18 meses de dados para identificar padrões e outros 6 meses para validar se as previsões acertaram. É esse tipo de previsão que decide se você recebe uma oferta de crédito ou se uma compra no seu cartão é bloqueada como suspeita.
Alugar IA ou ter a própria: a escolha que o Itaú fez
O jeito mais rápido de um banco usar IA generativa é alugar modelos prontos de grandes empresas de tecnologia. O próprio Itaú faz isso. O ia.i, assistente de IA do aplicativo lançado em 27 de julho para 300 mil correntistas, com meta de chegar a 100% da base até o fim do ano segundo a Convergência Digital, funciona com “uma série de LLMs, organizados por meio de um orquestrador”, nas palavras do CIO Ricardo Guerra ao Mobile Time. Um case publicado pela OpenAI e resumido pelo AI Daily em 17 de outubro cita modelos da OpenAI no ia.i.
A NeoSpace joga em outro campo. Segundo o NeoFeed, a startup cria plataformas para que empresas treinem modelos com os próprios dados e, por isso, diz não disputar a mesma informação que OpenAI e Anthropic. Para o Itaú, a lógica é clara: os modelos alugados entendem bem a conversa com o cliente, mas o diferencial competitivo está nos dados que só o banco tem. O fato relevante diz que a parceria de cerca de dois anos já gerou resultados em três áreas: crédito, CRM (relacionamento com o cliente) e prevenção a fraudes.
Se você leu meu post sobre o Brasil na corrida da IA, lembra que a discussão sobre soberania tecnológica costuma ficar no governo e nos data centers. Aqui é uma empresa privada brasileira decidindo que a camada mais estratégica da IA, o modelo treinado com seus dados, não pode ficar só nas mãos de fornecedores americanos.

Uma história que começa antes da NeoSpace
Esse negócio tem um precedente que pouca gente lembrou. Os fundadores da NeoSpace já tinham vendido uma empresa para o Itaú: a Zup, comprada em 2019 com valor-base de R$ 575 milhões, segundo o Times Brasil. A linha do tempo ajuda a ver a relação:
| Quando | O que aconteceu | Fonte |
|---|---|---|
| 2019 | Itaú compra a Zup, fundada por Bruno Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo Debs | Times Brasil, NeoFeed |
| Janeiro de 2025 | Itaú lidera rodada de US$ 18 milhões na NeoSpace, avaliada em US$ 100 milhões | NeoFeed |
| 27 de julho de 2026 | Lançamento do ia.i para 300 mil correntistas | Convergência Digital |
| 26 de outubro de 2026 | Fato relevante: compra de 100% da NeoSpace por R$ 2,925 bilhões | Itaú (fato relevante) |
Pelo fato relevante, a NeoSpace segue com gestão e operação autônomas e com a equipe atual. O CEO Bruno Pierobon continua no comando. O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, chamou a aquisição de “um investimento estratégico”, segundo o Seu Dinheiro.
Os números que pedem cautela
Aqui eu faço questão de separar o que é fato do que é promessa, porque as manchetes misturam. Segundo o Times Brasil, a NeoSpace:
- Projeta faturar R$ 300 milhões em 2026 e mais de R$ 3 bilhões em 2030. São projeções da empresa, não receita realizada.
- Cita ganhos de 8% a 10% em alguns casos e de até 30% em outros, sem auditoria externa.
- Diz ser a maior usuária da GPU Nvidia B200 na América Latina e planeja quintuplicar a capacidade de processamento em dois anos.
- Não divulga clientes além do Itaú. Setores como telecom, energia e aviação aparecem como possibilidades, sem contratos confirmados.
O próprio Itaú não divulgou estimativas de benefício financeiro da compra, segundo o Times Brasil. E o pagamento diferido em cinco anos, sujeito a condições, é um sinal de que o banco também quer ver os resultados antes de pagar tudo.
O que muda para quem é cliente
No curto prazo, nada que você vá notar amanhã. A tendência é o ia.i ficar mais preciso no que já promete: ofertas de crédito ajustadas ao seu perfil, planejamento financeiro e conversas que levam em conta o seu histórico. No campo da fraude, que no Brasil é assunto sério, como mostrei no post sobre golpes digitais e Pix, um modelo treinado com os padrões de milhões de transações tem mais chance de perceber que aquela transferência às 2h da manhã não combina com você.
O outro lado é que a mesma máquina que conhece seu comportamento financeiro decide o quanto de crédito você merece. Quanto mais o banco depende de um modelo próprio, mais importa saber como ele é auditado, e essa é uma pergunta que o debate sobre IA no Brasil ainda não respondeu para o setor financeiro.
E você, aceitaria que o assistente do seu banco usasse todo o seu histórico de transações para sugerir crédito e bloquear compras, ou acha que isso vai longe demais?
Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.
Fontes
- Itaú Unibanco, fato relevante (Form 6-K na SEC): valor, pagamento, condições e autonomia da NeoSpace (26/10/2026)
- NeoFeed: rodada de 2025, Large Data Model e fundadores (26/10/2026)
- Times Brasil: projeções, produtos, infraestrutura e compra da Zup (26/10/2026)
- Seu Dinheiro: declaração de Milton Maluhy Filho (26/10/2026)
- Mobile Time: CIO do Itaú sobre os LLMs do ia.i (09/06/2026)
- Convergência Digital: lançamento do ia.i e metas (27/07/2026)
- AI Daily: case da OpenAI sobre o ia.i (17/10/2026)





