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Itaú compra a NeoSpace por R$ 2,9 bilhões: o que é ter IA própria e por que um banco paga isso

Itaú compra a NeoSpace por R$ 2,925 bilhões. Entenda o que é um modelo fundacional, por que o banco quer IA própria e o que muda para o cliente

Fachada laranja de uma agência do banco Itaú no Leblon, Rio de Janeiro, com o logotipo azul e amarelo

Na segunda-feira (26), enquanto o noticiário ainda digeria o resultado da eleição, o Itaú Unibanco publicou um fato relevante que me fez parar tudo: o banco vai comprar 100% da NeoSpace, uma startup brasileira de inteligência artificial, por R$ 2.925.000.000. Uma parcela é paga no fechamento e o restante fica diferido em cinco anos, sujeito a condições. O negócio ainda depende do aval do Cade e do Banco Central.

O que chama atenção é a velocidade. Segundo o NeoFeed, em janeiro de 2025 a NeoSpace foi avaliada em US$ 100 milhões, numa rodada de US$ 18 milhões liderada pelo próprio Itaú, que pagou US$ 15 milhões por 15% da empresa, segundo o Times Brasil. Menos de dois anos depois, o banco aceita pagar R$ 2,925 bilhões pela totalidade das ações. Para entender por que, é preciso entender o que a NeoSpace faz, e isso exige separar dois conceitos que costumam aparecer misturados.

Fachada laranja de uma agência do banco Itaú no Leblon, Rio de Janeiro, com o logotipo azul e amarelo
Agência do Itaú no Leblon, Rio de Janeiro. Foto: Junius, domínio público, via Wikimedia Commons

O que é um modelo fundacional, explicado sem jargão

O fato relevante descreve a NeoSpace como especializada em modelos fundacionais treinados com grandes volumes de dados. Modelo fundacional é a base sobre a qual se constroem os assistentes e aplicativos de IA. O ChatGPT, por exemplo, roda sobre modelos desse tipo, treinados principalmente com texto.

A diferença da NeoSpace está no tipo de dado. A startup batizou sua arquitetura de Large Data Model, um “grande modelo de dados”, em oposição ao Large Language Model, o “grande modelo de linguagem” por trás dos chatbots. Segundo o NeoFeed, o LDM analisa qualquer formato de dado ou documento, e não apenas linguagem. O cofundador Felipe Almeida resumiu assim ao Times Brasil: “Os modelos de linguagem usados no dia a dia foram desenvolvidos sobretudo para processar texto”.

Na prática, pensa no que um banco tem guardado: anos de transações, pagamentos de fatura, atrasos, compras no cartão, movimentações de Pix. Isso não é texto, e não está na internet onde os grandes modelos aprendem. O Times Brasil descreve um dos métodos da NeoSpace: usar 18 meses de dados para identificar padrões e outros 6 meses para validar se as previsões acertaram. É esse tipo de previsão que decide se você recebe uma oferta de crédito ou se uma compra no seu cartão é bloqueada como suspeita.

Alugar IA ou ter a própria: a escolha que o Itaú fez

O jeito mais rápido de um banco usar IA generativa é alugar modelos prontos de grandes empresas de tecnologia. O próprio Itaú faz isso. O ia.i, assistente de IA do aplicativo lançado em 27 de julho para 300 mil correntistas, com meta de chegar a 100% da base até o fim do ano segundo a Convergência Digital, funciona com “uma série de LLMs, organizados por meio de um orquestrador”, nas palavras do CIO Ricardo Guerra ao Mobile Time. Um case publicado pela OpenAI e resumido pelo AI Daily em 17 de outubro cita modelos da OpenAI no ia.i.

A NeoSpace joga em outro campo. Segundo o NeoFeed, a startup cria plataformas para que empresas treinem modelos com os próprios dados e, por isso, diz não disputar a mesma informação que OpenAI e Anthropic. Para o Itaú, a lógica é clara: os modelos alugados entendem bem a conversa com o cliente, mas o diferencial competitivo está nos dados que só o banco tem. O fato relevante diz que a parceria de cerca de dois anos já gerou resultados em três áreas: crédito, CRM (relacionamento com o cliente) e prevenção a fraudes.

Se você leu meu post sobre o Brasil na corrida da IA, lembra que a discussão sobre soberania tecnológica costuma ficar no governo e nos data centers. Aqui é uma empresa privada brasileira decidindo que a camada mais estratégica da IA, o modelo treinado com seus dados, não pode ficar só nas mãos de fornecedores americanos.

Placa Nvidia HGX B200 com oito GPUs, o tipo de chip usado para treinar modelos de inteligência artificial
Sistema Nvidia HGX B200, a GPU que a NeoSpace diz usar. Foto: Pokiiri, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Uma história que começa antes da NeoSpace

Esse negócio tem um precedente que pouca gente lembrou. Os fundadores da NeoSpace já tinham vendido uma empresa para o Itaú: a Zup, comprada em 2019 com valor-base de R$ 575 milhões, segundo o Times Brasil. A linha do tempo ajuda a ver a relação:

QuandoO que aconteceuFonte
2019Itaú compra a Zup, fundada por Bruno Pierobon, Felipe Almeida e Gustavo DebsTimes Brasil, NeoFeed
Janeiro de 2025Itaú lidera rodada de US$ 18 milhões na NeoSpace, avaliada em US$ 100 milhõesNeoFeed
27 de julho de 2026Lançamento do ia.i para 300 mil correntistasConvergência Digital
26 de outubro de 2026Fato relevante: compra de 100% da NeoSpace por R$ 2,925 bilhõesItaú (fato relevante)

Pelo fato relevante, a NeoSpace segue com gestão e operação autônomas e com a equipe atual. O CEO Bruno Pierobon continua no comando. O CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho, chamou a aquisição de “um investimento estratégico”, segundo o Seu Dinheiro.

Os números que pedem cautela

Aqui eu faço questão de separar o que é fato do que é promessa, porque as manchetes misturam. Segundo o Times Brasil, a NeoSpace:

  • Projeta faturar R$ 300 milhões em 2026 e mais de R$ 3 bilhões em 2030. São projeções da empresa, não receita realizada.
  • Cita ganhos de 8% a 10% em alguns casos e de até 30% em outros, sem auditoria externa.
  • Diz ser a maior usuária da GPU Nvidia B200 na América Latina e planeja quintuplicar a capacidade de processamento em dois anos.
  • Não divulga clientes além do Itaú. Setores como telecom, energia e aviação aparecem como possibilidades, sem contratos confirmados.

O próprio Itaú não divulgou estimativas de benefício financeiro da compra, segundo o Times Brasil. E o pagamento diferido em cinco anos, sujeito a condições, é um sinal de que o banco também quer ver os resultados antes de pagar tudo.

O que muda para quem é cliente

No curto prazo, nada que você vá notar amanhã. A tendência é o ia.i ficar mais preciso no que já promete: ofertas de crédito ajustadas ao seu perfil, planejamento financeiro e conversas que levam em conta o seu histórico. No campo da fraude, que no Brasil é assunto sério, como mostrei no post sobre golpes digitais e Pix, um modelo treinado com os padrões de milhões de transações tem mais chance de perceber que aquela transferência às 2h da manhã não combina com você.

O outro lado é que a mesma máquina que conhece seu comportamento financeiro decide o quanto de crédito você merece. Quanto mais o banco depende de um modelo próprio, mais importa saber como ele é auditado, e essa é uma pergunta que o debate sobre IA no Brasil ainda não respondeu para o setor financeiro.

E você, aceitaria que o assistente do seu banco usasse todo o seu histórico de transações para sugerir crédito e bloquear compras, ou acha que isso vai longe demais?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

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