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Lula reeleito: a virada do 1º para o 2º turno explicada em números

Virada de Lula no 2º turno: de 2,2 milhões atrás para 4,4 milhões à frente. De onde vieram os votos, região por região, com os dados finais do TSE

Lula discursa na tribuna do Tribunal Superior Eleitoral, ao lado da bandeira do Brasil, na cerimônia de diplomação de 2022

Fui dormir no domingo (25) com a mesma frase na cabeça: Lula terminou o 2º turno com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (48,21%). Três semanas antes, no 1º turno de 4 de outubro, era Flávio quem estava na frente, com 47,03% contra 45,16%. Segundo o portal português IOL, é a primeira vez desde a volta das eleições presidenciais em dois turnos, em 1989, que quem ficou em segundo lugar no 1º turno acaba vencendo.

Virada é uma palavra que todo mundo usa, mas pouca gente explica de onde vieram os votos. Então fiz o que gosto de fazer depois de uma eleição: abri as planilhas, coloquei 1º e 2º turno lado a lado e fui atrás da conta. Neste post eu mostro, número por número, como uma desvantagem de 2,2 milhões de votos virou uma vitória por 4,4 milhões.

Lula discursa na tribuna do Tribunal Superior Eleitoral, ao lado da bandeira do Brasil, na cerimônia de diplomação de 2022
Lula na tribuna do TSE durante a diplomação de dezembro de 2022. Foto: TSE, domínio público, via Wikimedia Commons

O placar dos dois turnos, lado a lado

Antes de qualquer interpretação, os números brutos. No 1º turno, segundo os dados do TSE reproduzidos pelo site Meu Voto, Flávio teve 56.104.503 votos e Lula, 53.879.538. No 2º turno, a totalização final publicada pelo Jornal do Comércio com dados do TSE mostra a ordem invertida.

Indicador1º turno (4/10)2º turno (25/10)
Lula (PT)53.879.538 (45,16%)64.256.232 (51,79%)
Flávio Bolsonaro (PL)56.104.503 (47,03%)59.826.041 (48,21%)
Outros 10 candidatos9.316.747 (7,81%)não disputaram
Abstenção33.469.244 (21,08%)30.509.005 (19,22%)
Brancos + nulos5.975.0474.153.801

A conta simples: entre um turno e outro, Lula somou 10.376.694 votos novos. Flávio somou 3.721.538. Foi nessa diferença de ritmo que a eleição mudou de dono. Quem acompanhou a série de pesquisas de junho que já mostravam Lula à frente num eventual 2º turno vai lembrar que o cenário de mano a mano sempre foi mais apertado do que o de 1º turno.

De onde podiam sair os votos novos

Aqui está a parte didática que eu acho mais interessante. Os votos que entraram no 2º turno só podiam vir de três lugares, e todos eles estão nos dados oficiais:

  • Eleitores dos outros candidatos. No 1º turno, 9.316.747 votos válidos foram para nomes fora da dupla principal. Os maiores: Augusto Cury (Avante), com 3.448.569; Renan Santos (Missão), com 2.675.887; e Ronaldo Caiado (PSD), com 2.605.148.
  • Gente que não tinha ido votar. A abstenção caiu de 33.469.244 para 30.509.005. São 2.960.239 eleitores a mais nas urnas.
  • Quem tinha votado branco ou nulo. A soma de brancos e nulos encolheu 1.821.246 votos.

Some as três fontes e o total chega a 14,1 milhões de votos disponíveis, exatamente o número de votos novos que os dois finalistas receberam juntos (14,1 milhões). A conta fecha porque o eleitorado apto foi o mesmo nos dois turnos, 158.745.502 pessoas. Um alerta honesto: essa aritmética mostra de onde os votos podiam sair, mas não prova quem migrou para quem. O voto é secreto, e o eleitor do Cury pode ter ido para Lula enquanto um ex-abstencionista foi para Flávio. O que o dado garante é o saldo: dessa reserva de cerca de 14 milhões, Lula ficou com quase três de cada quatro votos.

O mapa da virada, região por região

O levantamento do Congresso em Foco com dados do TSE, feito com 99,99% das seções totalizadas, mostra que a virada não aconteceu num lugar só. Lula avançou em todas as regiões, mas por motivos diferentes.

RegiãoVantagem no 1º turnoVantagem no 2º turno
NordesteLula, 11,1 milhõesLula, 13,65 milhões
SudesteFlávio, 5,66 milhõesFlávio, 2,81 milhões
SulFlávio, 5,04 milhõesFlávio, 4,58 milhões
Centro-OesteFlávio, 2,17 milhõesFlávio, 1,87 milhão
NorteFlávio, cerca de 459 milLula, 1.079 votos

O Nordeste fez o que sempre faz para o PT: deu 69,37% dos votos a Lula e ampliou a vantagem em cerca de 2,5 milhões. Mas a virada propriamente dita veio do Sudeste. Flávio continuou vencendo na região, com 52,76%, só que a diferença caiu pela metade. Lula ganhou 4,8 milhões de votos novos ali, contra 1,94 milhão de Flávio.

Três estados explicam boa parte disso. Em São Paulo, segundo o Sem Pauta News, a vantagem de Flávio encolheu de 3,4 milhões para 2 milhões. Minas Gerais foi o único estado a trocar de vencedor: Flávio tinha cerca de 589 mil votos de frente no 1º turno, e Lula levou no 2º. E o Norte, que parecia território de Flávio, terminou decidido a favor de Lula por 1.079 votos, num universo de mais de 10 milhões de votos válidos na região.

Urna eletrônica brasileira modelo UE2020 com teclado numérico e teclas branco, corrige e confirma, ao lado do terminal do mesário
Urna eletrônica modelo UE2020. Foto: TSE, domínio público, via Wikimedia Commons

As duas horas a mais e a contestação de Flávio

A noite de domingo teve um capítulo à parte. Às 16h32, chegou ao STF uma reclamação da coligação de Lula dizendo que Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia, não tinham ônibus suficientes para levar eleitores às seções, descumprindo a decisão do Supremo na ADPF 1031, que garante transporte público gratuito no dia da eleição. O ministro Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h. Segundo a Rádio Senado, a campanha de Flávio tinha feito pedido parecido, e Zanin esclareceu depois que as duas horas extras valiam só onde as urnas ainda não tinham sido fechadas.

Depois da confirmação do resultado, Flávio disse, segundo o InfoMoney: “Vamos pedir a anulação dessas eleições”. O IOL registra que ele critica justamente a prorrogação, e lembra que a Reuters apontou que a própria campanha dele havia pedido mais tempo em áreas atingidas pela chuva. Quem leu aqui sobre a notícia-crime que Flávio levou ao STF contra Lula em junho sabe que judicializar a disputa não é novidade nessa campanha. Até a publicação deste post, não encontrei nenhum dado público sobre quantos votos foram registrados depois das 17h, e é esse tipo de número que qualquer contestação vai precisar apresentar diante de uma diferença de 4,43 milhões.

O que acontece agora

O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, ligou para Lula ainda no domingo para parabenizar pela reeleição, segundo a Agência Brasil. Lula toma posse em 5 de janeiro de 2027, como 40º presidente do Brasil, para o seu quarto mandato. Em junho, quando escrevi o guia do que acontecia entre julho e o 1º turno, a pergunta era quem chegaria ao 2º turno. Agora a pergunta virou outra: como governar um país que se dividiu quase ao meio.

O retrato que fica é esse, com o Nordeste de um lado e Sul e Centro-Oeste do outro, e um Sudeste que decidiu a eleição sem trocar de lado no agregado. Lula venceu porque perdeu de menos onde costumava perder de muito.

E você, acha que a virada veio mais do eleitor do centro que votou em Cury e Caiado no 1º turno ou de quem tinha ficado em casa e resolveu sair para votar no dia 25?

Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.

Fontes

  • Jornal do Comércio: totalização final do 2º turno com dados do TSE (26/10/2026)
  • Meu Voto: resultado do 1º turno, dados abertos do TSE (04/10/2026)
  • InfoMoney: cobertura ao vivo do 2º turno, percentuais e abstenção (25/10/2026)
  • Congresso em Foco: votação por região no 1º e 2º turno (25/10/2026)
  • Sem Pauta News: mapa da virada por estado (26/10/2026)
  • Rádio Senado: decisão de Zanin que prorrogou a votação (25/10/2026)
  • Agência Brasil: presidente do TSE parabeniza Lula e data da posse (25/10/2026)
  • IOL: ineditismo da virada e contestação de Flávio (26/10/2026)

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