Os alertas do Papa Leao XIV sobre IA que todo mundo precisa ouvir

Papa Leao XIV lanca enciclica ‘Magnifica Humanitas’ pedindo regulacao global da IA, desarmamento tecnologico e protecao da dignidade humana diante do avanco das big techs.

Semana passada eu estava pesquisando sobre os rumos da regulamentação de IA no mundo quando me deparei com uma notícia que me fez parar: o Papa Leão XIV, no primeiro ano do seu pontificado, escolheu a inteligência artificial como tema da sua primeira encíclica. Isso não é pouca coisa. Uma encíclica é o documento mais solene que um Papa pode escrever, e ele dedicou 42.300 palavras a um alerta que ele mesmo resumiu em duas palavras: “desarmar a IA”.

Antes que você pense que isso é mais um documento religioso desconectado da realidade, deixa eu te dizer: o lançamento foi feito no Vaticano lado a lado com Chris Olah, cofundador da Anthropic – a mesma empresa que está brigando na Justiça com o governo Trump por causa do uso militar da sua tecnologia. E Olah não poupou críticas: disse que “as decisões sobre IA não podem ficar nas mãos de pessoas da indústria”. Pois é.

Papa Leao XIV durante oracao semanal no Vaticano
Papa Leao XIV lancou a enciclica “Magnifica Humanitas” sobre IA em 25 de maio de 2026. Foto: Vatican Media / CNN Brasil

O que é a “Magnifica Humanitas”?

O nome oficial da encíclica é “Magnifica Humanitas” (Magnífica Humanidade), um livreto de 235 páginas lançado em 25 de maio de 2026. É o primeiro documento teológico do pontificado de Leão XIV, e o primeiro Papa a apresentar pessoalmente a própria encíclica ao mundo – normalmente os Pontífices delegam essa tarefa a cardeais. Ele foi ao Vaticano, segurou o documento e apresentou, junto com um dos nomes mais influentes da IA mundial.

O documento não é contra a tecnologia. Pelo contrário: reconhece o potencial da IA para avanços na medicina, na ciência e na comunicação. Mas faz uma distinção fundamental: oportunidade não é desculpa para omissão. E o Papa deixa isso claro ao afirmar que “não podemos considerar a IA moralmente neutra”. Toda ferramenta técnica, segundo ele, “incorpora escolhas e prioridades através do que mede, ignora e otimiza, e de como classifica pessoas e situações”.

Os 5 alertas principais do Papa sobre IA

Vou resumir os pontos que considerei mais impactantes da encíclica:

1. “Desarmar a IA” – o chamado central

O termo mais forte e mais repetido nos resumos da encíclica é este: “desarmar a inteligência artificial”. O Papa não está falando de metáfora. Ele está falando literalmente de sistemas autônomos de decisão letal. A frase que mais me marcou foi: “Não é permitido confiar decisões letais ou irreversíveis a sistemas artificiais.” Isso inclui drones autônomos, sistemas de vigilância preditiva, armas cibernéticas e qualquer tecnologia que possa tirar vidas sem supervisão humana direta.

2. IA na guerra: a “guerra justa” está ultrapassada

O Papa declara que a doutrina da “guerra justa” – aquela teoria cristã de quatro pontos que define quando uma guerra é moralmente aceitável – está “agora ultrapassada”. E isso vem depois de uma queda de braço com o vice-presidente dos EUA, JD Vance, que disse que o Papa “deveria ter cuidado ao falar sobre assuntos de teologia” depois que Leão XIV criticou os ataques conjuntos EUA-Israel contra o Irã. A resposta do Papa na encíclica: “A construção de um mundo em estado de conflito perpétuo é um mal e deve ser chamada pelo que é.”

3. A Torre de Babel da tecnologia

O Papa faz um paralelo direto entre a corrida da IA e a Torre de Babel – aquela história bíblica em que a humanidade tenta construir uma torre que chega ao céu e acaba se destruindo pela arrogância. Para ele, a concentração da IA nas mãos de poucas empresas de tecnologia está criando um plano que “domina e, em última instância, desumaniza”. O alerta ecoa o que eu já escrevi aqui sobre o poder das big techs e a necessidade de regulação.

4. Uma “nova forma de escravidão” digital

Outro ponto que me chamou a atenção: o Papa pediu desculpas pela legitimação histórica da escravidão pela Igreja e fez uma conexão direta com os tempos modernos. Ele alerta que a exploração de dados, a vigilância em massa e a dependência tecnológica estão criando uma “nova forma de escravidão”. Não no sentido literal de correntes, mas na perda de autonomia, na manipulação de desejos e no controle invisível que os algoritmos exercem sobre nossas decisões diárias.

5. Crítica ao transhumanismo e ao poder das big techs

O Papa critica duas correntes ideológicas: o transhumanismo (a ideia de que a tecnologia pode superar limitações humanas como o envelhecimento) e o pós-humanismo (que questiona a singularidade dos seres humanos e dilui as fronteiras entre humanos e máquinas). Para ele, ambas retiram o que há de mais fundamental: a dignidade única da pessoa humana. E a mensagem política é clara: “quem controla a IA impõe sua visão de mundo”.

Papa Leao XIV
O Papa Leao XIV e o primeiro pontifice americano e o primeiro a apresentar pessoalmente uma enciclica. Foto: Vatican Media / CNN Brasil
PontoO que o Papa defende
Uso em guerrasProibição de sistemas autônomos letais; supervisão humana obrigatória
Regulação globalEstruturas legais robustas com supervisão independente
Big TechsIA não pode ficar nas mãos de poucas empresas
TrabalhoTecnologia deve proteger empregos, não substituí-los
Dignidade humanaPessoa humana deve estar no centro, não o lucro ou a eficiência
ComunicaçãoPropõe “ecologia da comunicação”; defende jornalismo sério
TransparênciaUsuários informados e sistema político que não abdica de responsabilidade

A conexão com a Anthropic e a briga com Trump

A escolha da Anthropic para o lançamento não foi aleatória. A empresa de Chris Olah está em uma disputa judicial com o governo Trump por causa do uso de sua tecnologia em operações militares e de defesa. Olah foi ao Vaticano e disse algo raro de se ouvir de um executivo de IA: “Todos os laboratórios de IA de ponta, incluindo o Anthropic, operam dentro de um conjunto de incentivos e restrições que podem entrar em conflito com a prática correta.”

Ele defendeu três princípios: um “dever para com os pobres do mundo”, “imaginação moral e ambição” e a “necessidade de discernimento”. E completou: “Se queremos que essa tecnologia prospere, é extremamente importante que haja pessoas fora desses incentivos que estejam dispostas a ser nossas críticas sinceras e ponderadas. É isso que vejo na Magnifica Humanitas.”

E o que isso muda na prática?

Na prática, uma encíclica não tem poder de lei. Mas tem poder moral. O Papa Leão XIV já foi listado pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes em IA, e o Vaticano criou uma comissão interdicasterial específica para IA. O documento dialoga com o trabalho que já vinha sendo feito desde o Papa Francisco, que foi o primeiro Pontífice a discursar no G7 (em 2024) sobre o tema.

O que me preocupa – e acho que o Papa acertou em cheio – é o seguinte: a regulação da IA está sendo desenhada pelos mesmos que a desenvolvem. As big techs sentam na mesa com governos, financiam pesquisas, lobbiam regulamentações. Onde está a voz de quem não tem acesso a essa tecnologia? Onde estão os trabalhadores que serão substituídos? Onde estão os países do Sul Global que não têm poder de barganha? O Papa está dizendo que a Igreja quer ocupar esse espaço de contraponto.

Não sei você, mas ver um líder religioso – e não um executivo de tecnologia ou um político – pedindo “desaceleração” da IA e colocando a dignidade humana acima do lucro me parece um sinal dos tempos. Talvez a voz moral de que a tecnologia precisa não venha do Vale do Silício, mas de quem está disposto a olhar para o ser humano como um fim, não como um meio.

E você, o que acha? O Papa está certo em pedir que a IA seja “desarmada”? Ou isso é uma visão ingênua diante da corrida tecnológica global? Deixa sua opinião nos comentários – quero muito saber o que você pensa sobre isso.

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Fontes: CNN Brasil, Vatican News, Reuters, BBC News Brasil, Agência Brasil, OSV News. Fotos: Reuters / Reprodução.

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