Fui dormir no domingo (25) com a mesma frase na cabeça: Lula terminou o 2º turno com 64.256.232 votos, 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (48,21%). Três semanas antes, no 1º turno de 4 de outubro, era Flávio quem estava na frente, com 47,03% contra 45,16%. Segundo o portal português IOL, é a primeira vez desde a volta das eleições presidenciais em dois turnos, em 1989, que quem ficou em segundo lugar no 1º turno acaba vencendo.
Virada é uma palavra que todo mundo usa, mas pouca gente explica de onde vieram os votos. Então fiz o que gosto de fazer depois de uma eleição: abri as planilhas, coloquei 1º e 2º turno lado a lado e fui atrás da conta. Neste post eu mostro, número por número, como uma desvantagem de 2,2 milhões de votos virou uma vitória por 4,4 milhões.

O placar dos dois turnos, lado a lado
Antes de qualquer interpretação, os números brutos. No 1º turno, segundo os dados do TSE reproduzidos pelo site Meu Voto, Flávio teve 56.104.503 votos e Lula, 53.879.538. No 2º turno, a totalização final publicada pelo Jornal do Comércio com dados do TSE mostra a ordem invertida.
| Indicador | 1º turno (4/10) | 2º turno (25/10) |
|---|---|---|
| Lula (PT) | 53.879.538 (45,16%) | 64.256.232 (51,79%) |
| Flávio Bolsonaro (PL) | 56.104.503 (47,03%) | 59.826.041 (48,21%) |
| Outros 10 candidatos | 9.316.747 (7,81%) | não disputaram |
| Abstenção | 33.469.244 (21,08%) | 30.509.005 (19,22%) |
| Brancos + nulos | 5.975.047 | 4.153.801 |
A conta simples: entre um turno e outro, Lula somou 10.376.694 votos novos. Flávio somou 3.721.538. Foi nessa diferença de ritmo que a eleição mudou de dono. Quem acompanhou a série de pesquisas de junho que já mostravam Lula à frente num eventual 2º turno vai lembrar que o cenário de mano a mano sempre foi mais apertado do que o de 1º turno.
De onde podiam sair os votos novos
Aqui está a parte didática que eu acho mais interessante. Os votos que entraram no 2º turno só podiam vir de três lugares, e todos eles estão nos dados oficiais:
- Eleitores dos outros candidatos. No 1º turno, 9.316.747 votos válidos foram para nomes fora da dupla principal. Os maiores: Augusto Cury (Avante), com 3.448.569; Renan Santos (Missão), com 2.675.887; e Ronaldo Caiado (PSD), com 2.605.148.
- Gente que não tinha ido votar. A abstenção caiu de 33.469.244 para 30.509.005. São 2.960.239 eleitores a mais nas urnas.
- Quem tinha votado branco ou nulo. A soma de brancos e nulos encolheu 1.821.246 votos.
Some as três fontes e o total chega a 14,1 milhões de votos disponíveis, exatamente o número de votos novos que os dois finalistas receberam juntos (14,1 milhões). A conta fecha porque o eleitorado apto foi o mesmo nos dois turnos, 158.745.502 pessoas. Um alerta honesto: essa aritmética mostra de onde os votos podiam sair, mas não prova quem migrou para quem. O voto é secreto, e o eleitor do Cury pode ter ido para Lula enquanto um ex-abstencionista foi para Flávio. O que o dado garante é o saldo: dessa reserva de cerca de 14 milhões, Lula ficou com quase três de cada quatro votos.
O mapa da virada, região por região
O levantamento do Congresso em Foco com dados do TSE, feito com 99,99% das seções totalizadas, mostra que a virada não aconteceu num lugar só. Lula avançou em todas as regiões, mas por motivos diferentes.
| Região | Vantagem no 1º turno | Vantagem no 2º turno |
|---|---|---|
| Nordeste | Lula, 11,1 milhões | Lula, 13,65 milhões |
| Sudeste | Flávio, 5,66 milhões | Flávio, 2,81 milhões |
| Sul | Flávio, 5,04 milhões | Flávio, 4,58 milhões |
| Centro-Oeste | Flávio, 2,17 milhões | Flávio, 1,87 milhão |
| Norte | Flávio, cerca de 459 mil | Lula, 1.079 votos |
O Nordeste fez o que sempre faz para o PT: deu 69,37% dos votos a Lula e ampliou a vantagem em cerca de 2,5 milhões. Mas a virada propriamente dita veio do Sudeste. Flávio continuou vencendo na região, com 52,76%, só que a diferença caiu pela metade. Lula ganhou 4,8 milhões de votos novos ali, contra 1,94 milhão de Flávio.
Três estados explicam boa parte disso. Em São Paulo, segundo o Sem Pauta News, a vantagem de Flávio encolheu de 3,4 milhões para 2 milhões. Minas Gerais foi o único estado a trocar de vencedor: Flávio tinha cerca de 589 mil votos de frente no 1º turno, e Lula levou no 2º. E o Norte, que parecia território de Flávio, terminou decidido a favor de Lula por 1.079 votos, num universo de mais de 10 milhões de votos válidos na região.

As duas horas a mais e a contestação de Flávio
A noite de domingo teve um capítulo à parte. Às 16h32, chegou ao STF uma reclamação da coligação de Lula dizendo que Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia, não tinham ônibus suficientes para levar eleitores às seções, descumprindo a decisão do Supremo na ADPF 1031, que garante transporte público gratuito no dia da eleição. O ministro Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h. Segundo a Rádio Senado, a campanha de Flávio tinha feito pedido parecido, e Zanin esclareceu depois que as duas horas extras valiam só onde as urnas ainda não tinham sido fechadas.
Depois da confirmação do resultado, Flávio disse, segundo o InfoMoney: “Vamos pedir a anulação dessas eleições”. O IOL registra que ele critica justamente a prorrogação, e lembra que a Reuters apontou que a própria campanha dele havia pedido mais tempo em áreas atingidas pela chuva. Quem leu aqui sobre a notícia-crime que Flávio levou ao STF contra Lula em junho sabe que judicializar a disputa não é novidade nessa campanha. Até a publicação deste post, não encontrei nenhum dado público sobre quantos votos foram registrados depois das 17h, e é esse tipo de número que qualquer contestação vai precisar apresentar diante de uma diferença de 4,43 milhões.
O que acontece agora
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, ligou para Lula ainda no domingo para parabenizar pela reeleição, segundo a Agência Brasil. Lula toma posse em 5 de janeiro de 2027, como 40º presidente do Brasil, para o seu quarto mandato. Em junho, quando escrevi o guia do que acontecia entre julho e o 1º turno, a pergunta era quem chegaria ao 2º turno. Agora a pergunta virou outra: como governar um país que se dividiu quase ao meio.
O retrato que fica é esse, com o Nordeste de um lado e Sul e Centro-Oeste do outro, e um Sudeste que decidiu a eleição sem trocar de lado no agregado. Lula venceu porque perdeu de menos onde costumava perder de muito.
E você, acha que a virada veio mais do eleitor do centro que votou em Cury e Caiado no 1º turno ou de quem tinha ficado em casa e resolveu sair para votar no dia 25?
Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.
Fontes
- Jornal do Comércio: totalização final do 2º turno com dados do TSE (26/10/2026)
- Meu Voto: resultado do 1º turno, dados abertos do TSE (04/10/2026)
- InfoMoney: cobertura ao vivo do 2º turno, percentuais e abstenção (25/10/2026)
- Congresso em Foco: votação por região no 1º e 2º turno (25/10/2026)
- Sem Pauta News: mapa da virada por estado (26/10/2026)
- Rádio Senado: decisão de Zanin que prorrogou a votação (25/10/2026)
- Agência Brasil: presidente do TSE parabeniza Lula e data da posse (25/10/2026)
- IOL: ineditismo da virada e contestação de Flávio (26/10/2026)





