Na semana passada, li uma reportagem do Olhar Digital que me fez reler o título duas vezes: candidatos às eleições de 2026 estão substituindo pesquisas qualitativas de R$ 150 mil por “eleitores sintéticos” que custam R$ 65 mil ao mês. Não é ficção científica. É a descrição literal de como os bastidores das campanhas mudaram nos últimos meses.
O “eleitor sintético” é um conjunto de perfis virtuais criados com dados de grupos reais de eleitores. A tecnologia simula segmentos específicos, como “viúvas do PSDB”, pessoas de centro-direita que rejeitam Bolsonaro ou eleitores frustrados com o PT, para testar mensagens e discursos antes de qualquer eleitor real ver o conteúdo. E já tem campanha grande usando isso: um dos maiores times eleitorais do país conta com 54 profissionais focados exclusivamente em nanosegmentação.
O mais curioso é que isso é completamente legal. Não viola nenhuma regra do TSE. Não precisa de rótulo. Não aparece para o eleitor. E está acontecendo agora, meses antes das eleições de outubro.

O que é, exatamente, um eleitor sintético?
O conceito vem do marketing digital, mas migrou para a política com velocidade alta em 2025 e 2026. O processo funciona assim: você reúne dados reais de determinado segmento de eleitores, demográficos, ideológicos e comportamentais, treina um modelo de linguagem com essas informações e cria perfis virtuais que “respondem” como aquele grupo responderia a uma mensagem política.
O marqueteiro testa dez versões de um discurso, vê qual gera menos rejeição no “eleitor de centro paulistano” e ajusta antes de publicar. O processo que levava semanas e custava R$ 150 mil em pesquisa qualitativa com pessoas reais agora sai por R$ 65 mil mensais e roda em horas. Você consegue repetir o teste quantas vezes quiser, a qualquer hora, sem recrutar, sem pagar por participante, sem esperar resultado.
A campanha do governador Ronaldo Caiado (PSD) produziu em horas material que levaria quatro dias por meios convencionais. Um levantamento publicado no Diário do Comércio identificou mais de 280 casos de uso de IA em publicações de campanha só entre janeiro e novembro de 2025, antes mesmo das eleições começarem formalmente. A Politiza AI, startup brasileira fundada em 2022, já tinha mais de 30 candidatos a deputado federal e estadual em lista de espera antes do lançamento oficial em maio deste ano.
Por que isso incomoda mesmo quem apoia a tecnologia?
O problema não é a IA em si. É a assimetria que ela cria entre candidatos com orçamento alto e os demais.
Um candidato com R$ 65 mil mensais sobrando para testar mensagens em eleitores virtuais tem uma vantagem estrutural sobre quem faz campanha com R$ 5 mil no total. A produção de conteúdo ficou mais barata com a IA, mas as ferramentas mais sofisticadas ainda têm custo significativo. Os grandes orçamentos continuam com mais armas do que os pequenos.
Tem outro ponto que pouca gente está debatendo: quando você testa sua mensagem em um “eleitor frustrado com o PT” e ajusta o discurso com base na resposta virtual, você está fazendo engenharia de persuasão sistemática. Não é um marqueteiro experiente com intuição sobre o eleitorado. É um processo de afinação cirúrgica com base em simulações de vulnerabilidade de cada segmento.
Já escrevi aqui sobre o mercado clandestino de fãs falsos com IA nas eleições e sobre o caso das Donas Marias e o que a Lei da IA não conseguiu impedir. O eleitor sintético é o lado legal dessa mesma tendência: ambos usam IA para simular reações de eleitores. A diferença é que um é proibido e o outro, por enquanto, não tem regulação específica.
| Fãs falsos | Eleitores sintéticos | |
|---|---|---|
| O que é | Perfis falsos que simulam apoio nas redes sociais | Perfis virtuais internos para testar mensagens de campanha |
| Quem vê | O eleitor real (engano público) | Só a equipe de campanha (uso interno) |
| Status legal | Proibido pelo TSE | Sem regulação específica vigente |
| Custo estimado | Mercado ilegal, preço variável | R$ 65 mil ao mês |

O que o TSE regulou e o que ainda ficou de fora
Em março de 2026, o TSE aprovou a Resolução nº 23.755, que atualizou as regras sobre IA na campanha eleitoral. São medidas concretas, com penalidades reais, mas com um escopo bem definido: regulam o que o eleitor vê, não o que acontece nos bastidores.
O que ficou proibido:
- Deepfakes eleitorais para alterar imagem ou voz de candidatos com objetivo de desinformar
- Janela de Silêncio: nenhum conteúdo sintético novo pode ser publicado nas 72 horas antes da eleição nem nas 24 horas depois
- Algoritmos de plataformas recomendando candidatos, mesmo que o usuário solicite
- Montagens de cunho sexual com imagem de candidatos
O que ficou obrigatório:
- Rotulagem explícita de todo conteúdo gerado ou alterado por IA, em textos, áudios, vídeos e imagens
- Multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil para quem descumprir, e a remoção do conteúdo não elimina a penalidade
- Responsabilidade compartilhada das plataformas para retirar conteúdo ilegal imediatamente
O que ficou completamente fora do escopo: o uso interno de IA para testar e afinar mensagens antes da publicação. Eleitores sintéticos, otimização de discurso com modelos de linguagem, personalização de comunicação por segmento, análise de rejeição por perfil de eleitor, tudo isso ocorre antes de qualquer conteúdo ser publicado e, portanto, fora do alcance das regras atuais.
O que o eleitor precisa saber antes de outubro
A mensagem política que você receber no WhatsApp pode ter sido testada em uma simulação de alguém com o seu perfil demográfico e ideológico. O vídeo que aparecer no seu feed pode ter sido produzido em horas por IA generativa. E nenhum dos dois viola qualquer regra vigente, porque o TSE regula a propaganda, não a pesquisa que precede ela.
Acompanho as pesquisas eleitorais de perto, como quando analisei como a pesquisa BTG/Nexus acendeu alerta na campanha de Flávio enquanto a crise do Banco Master se aprofundava. Pesquisas medem intenção de voto real, com pessoas reais. O eleitor sintético faz o caminho inverso: simula pessoas para descobrir o que pode mudar essa intenção.
Isso não torna a tecnologia errada por definição. Marqueteiros sempre adaptaram mensagens a públicos diferentes. O que muda é a escala, a velocidade e a precisão. E o fato de que o eleitor não tem como saber quando isso aconteceu.
E você, se soubesse que a mensagem política que recebeu foi testada em uma versão sintética do seu perfil de eleitor, isso mudaria a forma como você avalia aquele candidato?
Este post foi produzido a partir de um debate colaborativo entre a autora e o agente Hermes, com pesquisa, dados e fontes verificadas.
Fontes
- Olhar Digital — IA cria eleitores sintéticos e faz em horas o trabalho de dias (04/05/2026)
- Diário do Comércio — Inteligência artificial provoca terremoto em campanhas eleitorais de 2026
- TSE — Por dentro das eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026
- Migalhas — IA nas campanhas eleitorais 2026: veja o que TSE autoriza ou proíbe
- Daniel Nunes — Eleições 2026: TSE endurece regras contra deepfakes e cria Janela de Silêncio para IA





